Uma História para se Guardar


E na disparidade das realidades, houve tempo para sonhar... 

Quando é que se guarda uma história? Especialmente se ela não teve grandes momentos, passeios à luz do luar, jantares românticos e sempre foi desprovida de planos. Uma história como tantas outras de emoções itinerantes, que se equilibra no muro estreito das possibilidades. Um romance que precisou apagar a realidade da lousa para viver o sentido real da palavra fantasia (escrita no ar).

De tão improvável e insólita, tímida e sem perspectiva, é uma história sem rotina, sem nome e recusa enredo convencional. Não sai às ruas de mãos dadas tampouco vai ao cinema para namorar em tom ficcional. É uma história que se veste de emoção todos os dias para ouvir as próprias batidas do coração. Consegue apalpar nos sentimentos sem precisar ouvir a respiração um do outro. Um conto feito de brisa onde não cabem fantasmas. Só alegorias! 

Ela já foi princesa e o chamou de anjo, já chorou de saudade, e ele lhe deu uma música. Ela já juntou palavras em versos e virou poetisa. Ele inventou um jeito de deixá-la feliz sem seguir o roteiro que o amor escreve aos amantes. E embora ambos não saibam dizer se isso é felicidade ou brincar de ser feliz, há um compromisso com o sorriso mútuo de todas as manhãs. Ou das noites insones.

É o tipo de história que não leva para onde o coração não quer ir, que necessita que se tire o pó da criatividade para manter a realidade do sonho. Exigente em essência, é uma história sem perguntas, o que dispensa qualquer resposta. E de algum lugar, que não importa onde fica, sai a vontade de manter esse enredo ritmado ao som de uma bela música, ou de várias, que nunca chegam ao fim. 

Essa é uma história que nasceu um dia, sem pretensão nem pompa, cresceu linda e merece ser escrita para se guardar. Não por ser perfeita ou ré confessa do amor, tampouco por parecer um idílio medieval, mas porque eterniza os momentos e não mergulha nos dias que virão. Têm cabeça nas nuvens e pés no chão. O que um tem do outro lhes basta como verdade. Sem fim!

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Despindo-me de Você!

It's time to say goodbye...


Tenho pouco tempo agora, já não disponho mais de palavras para dizer. Se eu esquecer alguma coisa, vou apagá-la da memória para não proferir mais nada. A minha voz ficou rouca e íngreme de tanto falar, e eu não me recordo do que você disse, talvez duas ou três emoções. Mas ainda que me faltem forças para mais, preciso lhe dizer que já vou indo e isso é a ruptura de todos esses anos, entre luz e escuridão. Uma pequena gota de caos no meio de uma noite de  nossas vidas. 

Parece fazer tanto tempo, muitas lembranças estão turvas, mesmo as que refletiram algum alento. Estive tão ocupada com esse paradoxo que inventei de recriar uma realidade que só a mim faz sentido, que nem percebi que precisava molhar a garganta com algo docemente acre para suportar os dias sem a maciez dos sonhos que dissimulam as minhas lágrimas. Ah, como eu queria que você errasse um pouco para perceber o quanto é normal dedilhar palavras que só rimam com medo.

Não quero mais avançar os dias neste percurso irreversível que, de tantos espinhos, vez ou outra, machuca a carne, as veias e me dá uma pálida aparência de tristeza doída, sofrida, pisada no chão. Dentre tantos equívocos, que não foram poucos, há sempre o que arde mais, o que fere feito faca e mostra a pele no vivo, com sangue escorrendo, mas a gente percebe que ainda há o que fazer. O sangue é inevitável, o corte é profundo, a dor é densa, quente, febril, mas a cicatriz abranda com o tempo.

Chegou, sim, a hora de dar um sorriso limpo, livre, sem manchas de passado nem réstias estanques de futuro. É hora de parar de reprimir as minhas incertezas ou de engessar os meus passos. Permito-me aceitar o convite de faltar com a lucidez. E fim!

Não quero despedida nem semblante denso nem lágrimas. Também dispenso o peso da culpa, do cansaço e da solidão. Não quero lembrar mais nada, foi tudo tão silencioso que ninguém percebeu, nem mesmo você, que eu me afastava aos poucos, bebendo em goles a languidez escura. 

Mas desde quando eu me tornei invisível? Foi quando aprendemos a olhar para nós mesmos e esquecer que tínhamos um ao outro, não foi? Foi quando você guardou os sonhos e virou de lado para um mundo só seu, esquecendo que eu estava ali. Por que lembrar? Eu insistia tanto em me fazer presente que não eram necessários esforços para me encontrar, não é? 

Não existia imprevisto, nem surpresa, nem medo de que eu me afastasse. Eu lhe traduzia tanta firmeza que nunca lhe ocorreu que a minha sensibilidade pudesse estar escondida em algum lugar, em alguma estação. Acho que foi na última primavera, talvez ela tenha florescido junto com as hortênsias do jardim, ainda que esteja partida ao meio, com um norte a seguir e um leste a ser esquecido.

Peço agora que releve os meus passos errados, as minhas atitudes precipitadas e a minha falta de compreensão. Não sei dizer sinceramente se tive ou não alguma intenção de magoá-lo, também não considere quem insistiu mais, e o que se viveu de bom ou de ruim. A vida é sempre esse eterno aprender. 

Por favor, finja que não vê a minha expressão de sono, de dúvida e de medo nem diga o que não quero ouvir. Permita-me apenas despir-me de você, ficar nua, crua, exata, sem sobrepele  e aroma sem viço, apenas com este gosto de morango na boca e essa inconstância que por ora me acalma. Este novo tempo é só meu, sem ruído, sem cadência de melancolia. Está tarde e preciso deste silêncio para prender o tempo, antes que ele me escape novamente das mãos. Por tudo o que fiz ou deixei à espera, nada mais importa. É-me aconchegante a face fria da realidade, a máscara cálida do fim.

Não quero mais um coração rendez-vous de lembranças, nem à margem do horizonte. Apenas um bilhete de entrada para o desconhecido. Preciso de uma paz que não tenho, e de um amor que não conheço. Quero um momento limpo, uma febre insana e suada, que me desalinhe e me faça espumar nessa imensidão que não cabe no meu lenço. Quero todas as horas. Passo a ser a dona do tempo.

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A Verdade do Amor

"Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!" 

(Florbela Espanca in "Amar")

Considere que as pessoas amam de maneira diferente. Que encaram os relacionamentos de forma muito peculiar, que, mais cedo ou mais tarde, acabam entrando em choque com a outra metade envolvida. Considere ainda que o grau de envolvimento a que cada um se permite tem a ver com personalidade, nível de carência e expectativa de futuro com aquela pessoa a quem está se doando. Não sei se por questão de cultura, histórico emocional ou utopia onírica, a maioria das pessoas (homens e mulheres) não consegue viver por inteiro um relacionamento. Talvez por medo de se envolver e quebrar a cara, por ter um leque de possibilidades amorosas ou por achar que aquela não é a pessoa ideal (merecedora) das suas aspirações românticas.

Relevemos aqui as que se entregam, de corpo e alma, ao amor, e dele tiram todas as dores e delícias possíveis ou inimagináveis. Reflito hoje sobre os "sem". Aqueles que não permitem e não se permitem experimentar uma ligação verdadeira, que são incapazes de demonstrar interesse em profundidade. São rasos, obtusos, duros, impermeáveis. Quase intocáveis! E há milhares de pessoas assim.

Mas por que esse flagelo psicológico no que se refere às emoções? Qual é o motivo desse comportamento esquivo, como se, a qualquer momento, a ponte pudesse desabar antes de ter concluído a travessia? Por que essa linha invisível de isolamento que não pode ser suspensa sob pena de tensão ou conflito caso haja uma tentativa "arbitrária" de dissipá-la?

A verdade é que todos somos capazes de amar, seja com maior ou menor intensidade. Tudo depende, acredito, do quanto nos sentimos seguros e dispostos a pôr o pé dentro do turbilhão e deixar ao sabor dos dias o direcionamento dessa relação. Acrescento ainda o quanto estamos inclinados a investir na continuidade daquilo que (todos sabemos) não nos dá certeza nem garantia de nada. Aliás, será esse o receio de abraçar, acarinhar e tomar para si o amor que se lhe apresenta tão bonito e desarmado? Ou será que o receio é se admitir pertencente a uma única pessoa, capaz de absorvê-lo(a) por completo?

A mim parece que essa impossibilidade de entrega emocional (que mantêm as pessoas a uma distância segura) se dá com mais frequência entre os homens, já que não conseguem saber, exatamente, o quanto estão envolvidos e o quanto precisam dar de si para satisfazer a parceira que, na maioria das vezes, é quem puxa o fio condutor e dá a temperatura ao relacionamento. Diga-se de passagem, é complicado esticar uma história que insiste em se manter no lugar, sem capítulos excedentes com direito a surpresas, encantamentos, um pouco de loucura e uma certa irracionalidade.

Em se tratando de amor, a palavra de ordem é "liberdade". Não há espaço para limitantes, condições e adversidades. Amor não pode ser reconstruído a cada dia, como se estivesse recomeçando. Ou ele existe ou não existe. E temos de aceitar que há pessoas que não conseguem dar a ele uma chance de existência. Perda de tempo insistir! É cansativo, exasperado, entediante lidar com alguém que não sabe o que quer e se quer mesmo estar ali. Que se recusa a ver que há dois lados de uma mesma moeda (e o outro lado ama de verdade). Que é preciso se sentir parte da equipe para haver vontade de vencer o jogo. 

O amor é possível, é prazeroso, é irrestrito. Quem não se doa é porque não ama. Quem não cuida do amor é porque não se importa que ele vá embora. Quem procura meandros para justificar as atitudes defensivas é porque já delimitou o espaço até onde quer ir e permite que o outro vá. Portanto, quem quer descobrir se ama de verdade, experimente ver se consegue retirar a linha invisível de isolamento que o mantém em segurança. Se não for possível, você já tem a resposta.


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As Nuances Femininas


Toda mulher tem os seus mistérios, ora simplistas e pessoais, ora florescentes em amplitude. Esse envoltório de enigmas transcende cifras e interpretações. Para traduzi-la em conteúdo seria necessário entender de arte em amiúde, da melodia do vento, de aromas naturais e de versos ritmados. Precisaria conhecer a sutil diferença entre fragilidade e delicadeza, uma linha tênue entre abstração e subjetividade, que percorre todos os sentidos. Saber que mulher tem a ver com o ciclo, fase, época, tempo, e ele a modifica. 

Uma mulher pode encantar pela beleza física, o modo de falar, de sorrir ou de envolver pelo conjunto de sensações que é capaz de provocar em cada gesto que realiza numa linguagem desprovida de verbo. Difícil, pois, é decifrá-la no todo, por mais observador, sensível ou intelectual que seja um homem. São curiosas nuances que se desenham a cada dia no seu horizonte como um renascer pela manhã revestido de cores imprevistas.

O complexo comportamento feminino não é um teorema, um conto intraduzível, mas requer tato e vicissitude para contemplar o que se passa no seu universo mental. Ela é a dona dos sentidos e os alia à personalidade, numa profusão de emoções sem esquecer da razão, que às ve
zes, pede atitudes em tons de terra, de chão sem poeira, de chuva sem arco-íris e de noite sem estrelas. Ela é sobriedade e desatino ainda que saiba equilibrar o seu eu ao mundo onde pisa. E pisa com leveza.

Mesmo que lhe seja exigido, nenhuma mulher conseguirá ser transparente e racional como o homem, haja vista a confusão que lhe causa ao agir de maneira intempestiva, inesperada. Essa confusão mental, aliás, é o que o extasia. Poetas, pintores, escultores, músicos, todos inebriados por essa mistura de arquétipos que tão bem combina com emoção e intuição, com perguntas sem respostas. Porém, no silêncio da sua consciência, de um modo esquálido ou nebuloso, ela encontra um jeito singular de viver e de responder aos seus questionamentos efervescentes.

Acredito que somente os homens com sensibilidade apurada consigam, de fato, desvendar algumas linhas do horizonte feminino. É na maneira de olhar, de tocá-la, de penetrar no seu mundo que ele avançará alguns passos em sua direção. É preciso que ele tenha sintonia emocional para captar o que ela está tentando traduzir em símbolos sensoriais. É necessário percepção para compreender os jogos de sinais, as táticas intuitivas, as ações e digressões psicológicas que a envolvem. E que não haja cobranças por não entendê-la no todo. O fascínio está no aroma, no toque e no gosto de surpresa que ela tem.


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Sobre Desejos e Expectativas...


De repente, lá estamos nós diante de um fato novo na nossa vida, que desperta, no mínimo, curiosidade, e, a partir dele, começamos a formar prognósticos que podem (ou não) se moldar ao desejo presente. É quase instintivo! Não pede razão! Alimentamos esse acontecimento de um modo bem peculiar, com as cores e os aromas que melhor nos convêm. Queremos porque queremos que seja assim!

E por falar em razão, ela não comunga com expectativa: são díspares se considerarmos que o elemento nutriente de um desejo quase irresistível são as emoções que ele nos desperta e o quanto nos permite fantasiar até o confirmarmos como uma verdade e não como uma probabilidade.

O tempo de gestação desse desejo (leia-se expectativa) é maravilhoso, pois nos dá sonhos, asas e uma verdade inventada, de acordo com o olhar que fazemos dele, que enxerga só o que quer e como quer. Ele se adapta, se encaixa, tem a forma justa das nossas aspirações.

Porém, um dia a realidade nos acorda de súbito e mostra, em tons pastéis, que aquilo que criamos no colorido mundo paralelo não é tão magistral nem tão adaptável: têm chuvas e tempestades, contratempos que ofuscam o desenho rabiscado mentalmente, que era só perfeição.

É neste momento que razão e emoção se chocam frontalmente e decidem quem vai e quem fica ou o quanto terá de cada uma na história. Em suma, conformamo-nos com o percentual que conseguimos da expectativa idealizada ou nos frustramos por ela não se ter concretizado a contento. 

Lendo os meus argumentos, dispostos assim, dá a impressão de que estão inclinados tendenciosamente para o lado racional, o de não alimentar expectativas nem sonhar com anseios pré-fabricados, que poderão levar à decepção. No entanto, a minha ideia acerca de expectativas é que se criem "possibilidades" para que elas se realizem. Os limitantes, muitas vezes, somos nós mesmos que concebemos por ficarmos passivos, apenas esperando o veredito.

Se considerarmos que "possibilidade", diferentemente de "expectativa", torna-nos agentes do processo que queremos alcançar, concluiremos que não é sendo expectador das nossas histórias que chegaremos ao fim da etapa com a sensação de que, pelo menos, lutamos para acertar o alvo. Portanto, não "expere"! Possibilite que aconteça!


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O meu Amor é Assim!

Ninguém escolhe amar essa ou aquela pessoa, é algo que acontece e começa a fazer sentido para ambos, independente de haver semelhança ou disparidade comportamental. É uma dependência que se instaura nos olhos, na mente, no coração; um quase estado de carência mútua, que dispensa explicações. Há um desejo de envolver-se cada vez mais, entranhar-se, proteger-se, fundir-se um no outro, sem férias, sem distância, sem rotina ou acomodação.

Porém, é quando encontramos esse alguém que passamos a idealizar uma vida em conjunto: perfeita, romântica, de acordo com as nossas inspirações oníricas. Integramo-nos de tal forma que passamos a desejar que as vontades sejam as mesmas, os pensamentos e a visão de mundo estejam em perfeita simetria, como se individualidade não existisse mais.

É claro que, com o passar do tempo, percebemos que isso tudo não passa de teoria. O amor vai perdendo, sim, um pouco do seu brilho frente às adversidades diárias, ainda que não perca a essência. Mas vem a frustração! E ela incomoda, chateia, tem insônia e carrega (ambos) para um caminho nada fácil de trilhar.

Se colocarmos o pé um pouquinho mais para dentro deste tema, chegaremos à conclusão de que a nossa visão de relacionamento é totalmente egoísta, já que desejamos nos satisfazer em plenitude sem pensar muito no que o outro está sentindo. Não temos exatamente uma preocupação com o ser amado, mas sim com o que ele pode nos proporcionar. Não há uma intenção clara de completá-lo, mas de nos sentirmos completos. Daí, o desencanto, o afastamento e a insegurança em relação ao que "de fato" sentimos pelo outro.

É complexo saber até que ponto estamos medindo e pesando a entrega do parceiro e o quanto estamos lhe devolvendo em proporção. O que é essencial para ele pode apenas ser bom para mim. E essa verdade, num futuro próximo, tende a tomar rumos distintos em relação ao que eu espero dele e o que ele espera de mim.

O nosso ideal de amor é unilateral, intransigente, centrado na própria vaidade. E é aí que precisamos ter sensibilidade para adequá-lo e fazê-lo perdurar no avançar dos dias com aquela pessoa que entendemos ser a que está mais próxima das nossas aspirações sentimentais. Que nos compreende e quer ser compreendida; que não se coloca acima em exigências e pouco se doa; que consegue entender o significado real da palavra “compartilhar” e que, mais importante de tudo, está disposta a dividir todas as emoções: boas e ruins.

Se o nosso amor não fosse tão idealizado e egocêntrico, entenderíamos que a razão comunga com ele em todos os aspectos, muito mais do que os desvarios frenéticos que tanto buscamos em um relacionamento. Pode parecer difícil ou lúcido demais aceitar que nunca conseguiremos que alguém seja exatamente da maneira que esperamos. Mas essa é a realidade!

Então, o que nos resta é tentar não entrar num emaranhado de cobranças e expectativas que só incorrerão em desgaste emocional. Em relações amorosas não existem certezas nem dias iguais. É preciso pensar nisso antes de imaginar comportamentos e intencionar fazer um modelo para o parceiro seguir a partir de nós.

Talvez, se déssemos mais leveza e espontaneidade aos nossos relacionamentos, não se fizesse necessário nenhuma discussão. Cobrança não é bom para ninguém! Nem para um, nem para outro. Será que paramos para pensar nisso quando nos envolvemos em argumentações intermináveis que só fazem corroer, dissimular e esconder a verdade dos sentimentos?

Se o amor tem luz própria, não posso querer tomar a luz de quem me ama emprestada para poder brilhar. Posso cuidar do meu amor; não há maneira de exigir que o outro o faça por mim. Sou responsável por metade da história, não pelo direcionamento dela.

Vestir uma indumentária (do amor que eu quero) em quem está comigo é perder-me de mim mesma e tutelar ao outro a condução da minha felicidade. A razão do amor está no que vem de dentro para fora (de cada um). E essa razão compreende apenas o hoje, o agora, o que se vive dia após dia. Amanhã, quem pode saber?

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Da Ínfima e Dolorosa Busca


Ou... da tão esperada resposta...
Favor avisar, quem encontrá-la...

Talvez o pior de tudo seja essa eterna busca, como um bálsamo amargo que se faz necessário ao corpo. Um caminho que precisa ser trilhado, sem chance de desviar o percurso. Continuamente, sem ruptura. O que antes era um sofisma esquálido e débil agigantou-se disforme e sinuoso, mais ou menos parecendo uma tempestade que vai crescendo, crescendo, abrangendo todos os espaços, lentamente, descompromissada de atingir um fim.

E nem me lembro quando começou essa procura por dentro, era apenas um ensaio de solidão. Uma consideração ao vazio que se instala no peito e vai se solidificando sem dia, mês ou hora de esvair. E como não existe arte-final para buscas, o resultado foi uma dor ínfima, persistente, que, decidida, pegou-me com braços fortes e foi apertando até quase me sufocar.

Mas sempre tem aquele momento em que não há mais expectativa, nem para buscas, nem para encontros, porém há constância, algo que fica entre sonho e espera de reverberar o dia em que ela desencante da sombra e traga quietude. Só que o dia amanhece e nada revigora; a noite exala seu cheiro de realidade e nenhum traço se altera na paisagem. Essa dor da busca que carrego, que sequer permite sentir solidão é tão exata e sólida, linear e dilacerante, uma sensação de impropriedade da própria vida, que até se divide em paradoxo, como um mecanismo de fuga e luta, impedimento e possibilidade. Impedimento e Possibilidade!

E para quem quer o indefinível, os dias passam sem fazer ruído, um prenúncio surdo de morbidez. Não há tempo de repassar a última fala, do último dia, da última vez que se acredita em mudança. É possível que eu tenha tomado gosto por me ferir, apreciar a cena até a queda de joelhos frente ao beco perene, escuro e sem saída.

Mas é sempre assim quando meus passos estão indecisos, obrigando-me a caminhar mais do que o necessário até sangrar os pés. E aquela frase presa na garganta, dilatada, inflamada "preciso-encontrar-o-caminho", mesmo que de uma maneira oblíqua, desarticulada, disfarçando as cicatrizes, engolindo os segundos de desabono.

E com o medo em contrações, desembrulhando os pedaços de breu, passo a ferro todos os momentos da minha busca, até os destemperados e agonizantes, incompreensíveis e inspiradores, até os que eu quis verbalizar e me vi com a voz áspera, salivando angústia e cuspindo cansaço.

De tanto abrir e fechar o armário dessa busca egoísta, que só a mim pertence, eu queria amarrá-la à razão e não mais separá-la de mim, andar com ela descalça pelas trilhas sinuosas das minhas histórias, dobrando as esquinas da vida com a certeza de que ela é só minha e só a mim cabe descartá-la. Talvez no dia em que eu conseguir abraçá-la de fato.

Sei que a falha é minha, com essa mania de querer entender o inintendível, fragmentar os enredos que me vêm às mãos, desenhar os poemas os quais me permito viver. E sei que não adianta fechar a gaveta mantendo o sonho da resposta nas mãos. Silencio e penso! Estendo ao sol novamente os fantasmas que me habitam e eternizam essa ínfima dor de querer sem saber, ou saber e querer sem poder.

Talvez o pior de tudo seja mesmo essa eterna procura de preencher o vazio que mora em mim e que costuma aparecer nos dias cinzentos, obrigando-me a apalpar as emoções. Onde quer que esteja a resposta, eu a encontrarei, mesmo que em sopros de melancolia, mas que saia de dentro para fora, verdadeiramente minha e que assine o contrato de não me autorizar a me perder (de mim) quando nos virmos de frente.

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Dia D

Mas se tempo é tudo o que eu tenho
Eu o gastaria todo com você...
(James Blunt - If Time Is All I Have)

Não, hoje não é dia de revirar gavetas nem de pensar em alinhamentos. Ficarei exatamente onde estou, apenas cedendo parte deste espaço a algo que me soe denso, sólido, ainda que confuso e impalpável. Talvez seja dia de enfrentar os fantasmas da modorra mental, apagar os vícios dos sonhos que se amainam prazerosamente entre os lençóis, livrar-me do pó que joguei embaixo do tapete, lançar ao vento as sementes contaminadas pela melancolia dos dias ocos de afeto.

É possível que seja hora de provar o gosto das parcas gotas de um néctar envelhecido e frio, mas que me aquecerá os lábios até que eu diga uma palavra tão doce que resuma o meu eu em você. É dia de morte de um conto feito de mel e brisa e início de um prelúdio nebuloso que fica entre ser e ter, algo muito parecido com ilusão. É ocasião de ocaso e não de amanhecer, de arrastar aquela música até o fim, tentando alcançar o que não vejo e viver o que sinto.

O instante de hoje será para acordar da fragilidade dos dias que nunca terminam. É um quase dia, uma quase noite, um quase acerto. Uma quase felicidade que brinca de fingir que é feliz. O tempo é de consentir e não de reagir. Um jeito desajeitado e sonso de buscar o invisível. Dia de procurar onde a flecha me acertou... E que tipo de dor eu me permiti. Momento de investigar as marcas da batalha que me concederam uma única estratégia. E não estou certa de que errei.

Partindo o tempo em pedaços, sei que existe algo maior do que um simples dia nebuloso e indecifrável feito fumaça. Ele tem cor e aroma e forma e promessa de não me deixar presa à ressaca que me envolve em ondas cavadas e busca seu corpo, sua voz, sua febre, seu desejo de me envolver nos seus sonhos e tatear o meu arbítrio que carrega o seu nome. E às vezes ele pesa. E cansa. E dói.

Eu queria reservar este dia para lutar por um perfeito estado de contemplação de nós dois, acenar a bandeira que me põe frágil e débil, sem ressalvas, sem proteção, dissimuladamente sua, entregue aos seus olhos, que encaixam nos meus e fazem a vida parecer melhor do que é.

Se o tempo que tenho é apenas o de hoje, não há planos, nem arranjos, nem vacilo. Abrir a lucidez com as mãos é o que me resta, mas deixo atrás da porta a nossa história lenta, que me causa prazer e dor. Uma antítese de emoções que me norteia e me confunde. É que no fundo, eu desconheço a força que altera as coisas. Que fiquem como estão. Quero (hoje) apenas provar a doçura da primavera sem achar que é o cair das folhas que me entristece.
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Procura-se Príncipe Desencantado

Procura-se um príncipe desencantado para encantar uma princesa urbana. Não precisa ser bonito, basta conseguir envolvê-la em suas emoções. Precisa saber falar e ouvir, sobretudo entender de tempo para conquistar e ser conquistado. Não, não precisa gostar de poesia como gosta a maioria das princesas, mas se gostar de observar a lua e de contar estrelas já será uma grande dádiva.

Procura-se um príncipe desencantado com olhos, necessariamente, da cor da verdade, entusiasmantes reflexos de otimismo e algum charme de mistério e sedução na retina. Que saiba cantar uma letra inteira de música só para impressionar, e que diga, bem devagarinho, sussurrando no ouvido, que o horizonte é logo ali quando estiver diante dela.

Deve saber guardar segredos, pois não é bom se decepcionar com alguém a quem se confiou narrativas emocionais. Não é preciso ser de primeira nem de segunda mão, mas que esteja com o coração limpo para uma história novinha em folha, com todas as promessas que ela pode oportunizar.

Se o coração ainda estiver ocupado ou nebuloso com alguns tons de cinza, que esteja disposto a colori-lo de uma só vez com as mais variadas nuances de azul ou verde, conforme estiver a luminosidade do dia ou da noite. Ou dependendo da estação. Mas é imprescindível ter sensibilidade suficiente para perceber que sinceridade é uma palavra importante.

Deve descobrir, em pouco tempo, que as emoções podem ser trocadas e somadas, nunca divididas. Tem que entender de limites, receios e carências, assim não haverá conflito ao primeiro sinal de mau tempo. É relevante que aprecie bem mais a primavera e as paisagens coloridas, ainda que deseje ardorosamente a insipidez (e sobriedade) do inverno.

Procura-se um príncipe desencantado, não que seja o extremo dos "encantados" de contos de fadas, mas que camufle os seus valores pessoais a fim de que possam ser descobertos aos poucos, um pouco a cada dia. Também não precisa ser uma enciclopédia para provar o quanto sabe do mundo, apenas teorizar de forma simples sobre as coisas do coração.

Precisa-se de um príncipe desencantado, com encantos lisonjeiros, especialmente singelos, que saiba muito mais sugerir do que mostrar, realizar do que planejar. Impreterivelmente, que tenha aversão a preconceitos e falsos moralismos. Que seja uma companhia agradável para se contar como foi o dia e quais são as expectativas para a noite monotamente previsível.

Para não cair de vez em lágrimas, precisa-se de um príncipe sem capa nem coroa, sem cabelos anelados, mas que seja um sonho real, enfeitado com girassóis e algumas margaridas para brincar de bem-me-quer. Ah, e não seria de todo desinteressante que entendesse de astrologia e gastronomia, para quem sabe, naqueles fins de semana chuvosos, interpretar a influência dos astros sobre a personalidade em meio ao jantar de massas e vinho.

Procura-se um príncipe desencantado para deixar de lado o passado de lembranças funestas, que ajude a escolher o novo papel de parede para a sala de estar, que tenha memória boa para não esquecer datas importantes e que jamais se debruce sobre o próprio ego, esquecendo que a vida solitária é bem mais dolorida.

Procura-se, enfim, um príncipe desencantado, sem cavalo branco, sem uma princesa adormecida, podendo até ser desprovido de valentia, mas que entenda de realidade sem, no entanto, imergir completamente nela, que tenha voz doce para nunca alterá-la em nome da imposição da vontade e que saiba, num simples beijo, num prazeroso beijo, num inesquecível beijo, transcender o corpo, atingindo direto o coração.
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Quando o Tesão pela Vida anda Morno

"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador (...) O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia." (Martha Medeiros)

Estive pensando hoje sobre o quanto a gente se permite amornar a vida. Quase conseguimos o emprego dos sonhos, faltaram dois pontos para passar naquele concurso, estivemos à beira de cometer uma loucura deliciosa por amor, perdemos três dos cinco quilos em excesso, compramos a casa que era quase igual a que desejávamos, saímos sempre cinco dos dez minutos necessários para não pegar fila no trânsito, demos um "quase perfeito" ao encontro romântico, enfim, aprendemos que quase nada sai como planejamos e nos conformamos com a pilha de frustrações que vamos acumulando nas quatro paredes que dividem conosco alegrias contidas e tristezas camufladas.

O que nos leva a amornar a vida? É tão mais fácil, não é? Ser mais ou menos simpático para evitar falácias, dar um meio sorriso a mostrar indignação, um abraço frouxo, indolente a ter que se justificar pela repulsa que sentimos ao calor do outro. Por que ser inflamado, tenso, exaltado se a serenidade e o equilíbrio são tão mais afáveis? O problema é que essa droga de vida “mais ou menos” aborrece. As pessoas mornas cansam. O amor tépido enjoa. Essa falta de tesão por tudo enfastia.

O ano termina e tudo continua simetricamente inalterado: os dias sem cor, os meses sem brilho, até a forma como damos bom-dia e boa-noite (é exatamente igual). Percebemos também que o sorriso espontâneo deu lugar ao gesto forçado que dói para se desenhar no rosto, mas a gente não se preocupa com isso, pois a pessoa ao nosso lado, por sua vez, nos devolve com a mesma gentileza o desprazer em dividir aquele que foi o lugar de promessas e prazeres.

Quem se deixa entrar nesse processo conhece bem os sintomas de quando as coisas já não têm mais o que amornar. A verdade é que somos permissivos, acabamos deixando de olhar onde estagnamos e passamos a ver somente os defeitos de quem está conosco e, como num mecanismo de autodefesa à própria incapacidade de reação, culpamos ainda mais o outro por nos encontrarmos impedidos de ir em busca de alguém que nos reacenda esse tesão pela vida e por todas as vicissitudes que ela apresenta. Ninguém quer viver sozinho, mas a solidão muitas vezes é maior quando, acompanhados, não nos enxergamos. E como pesa essa amarra que nos aprisiona o corpo e a mente, tornando-nos reféns da nossa própria sorte.

O fato é que nos calamos, chegando ao ponto de não termos mais o que falar; não existe linguagem que esclareça o que está indecifrável. Falta sensibilidade para perceber que nem tudo pode ser resolvido com uma ou duas conversas amistosas, talvez, nessa hora, seja o caso de apagar a luz e sussurrar uma ou duas palavras desconexas no ouvido, apenas para traduzir ou testar o que se sente e deixar aos gestos (que falam a linguagem do prazer) as possíveis respostas para acabar com a mornidão presente.

Mas, contrapondo a minha própria fala, eu não resistiria em levantar a seguinte possibilidade: - E se não estivermos esperando por respostas? E se o desejo interior, ainda que inconsciente, seja sair do tom pastel buscando o desconhecido? Mesmo que isso represente algo misterioso, disforme, obscuro, doloroso, cheio de incoerência e sem garantia de retorno à tepidez. Pode, sim, valer a pena.


Sabe-se lá de que maneira, de repente, a gente sente uma irritação por dentro, bradando por mudança. Talvez seja o caso de desequilibrar a balança e pender para o lado que parece mais atraente, que justifica o dormir e acordar com direito a abrir a janela e observar a paisagem sob outro enfoque, ou quem sabe nem abri-la, dando ao impulso a oportunidade de sair de casa e contemplar a paisagem livremente, com o vento remexendo os cabelos e a chuva fina batendo no rosto a descobrir uma nova face, sem a máscara da embriaguez passiva que nos põe cegos e surdos para os ecos inquietantes e multicoloridos da alma.


Ando mesmo com a garganta seca e as mãos suando frio na expectativa de que algo aconteça, seja um sorriso espontâneo ou uma lágrima pronta para se formar no canto esquerdo do meu olho. Eu preciso de febre, inquietação, de gosto de morango na boca, de uma ou duas aspirações que me puxem para a frente e me permitam olhar para dentro, percebendo até onde posso e quero ir.


Estou exausta de insipidez, falta, ausência, privação, carência. Não há mais tempo para esperar o entorno da estação. Sinto que é iminente me libertar das palavras vazias e da falta do calor que inflama, inebria, deixa o corpo suado de vida, de vontade de aquecer ao sol as cores neutras até enrubescerem. E nesse desespero resignado, adormecido, acabrunhado, que anda em círculos pela sala, eu possa me valer da coragem que anda escondida para, deliberadamente, escancaradamente, olhar-me no espelho e perceber que estou viva.


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O Desprezo supera o Ódio


Existe um espaço considerável entre as palavras “ódio” e “desprezo”. Odeia-se alguém por vários motivos, dentre eles a traição, o mau-caratismo e o abandono. O ódio é um sentimento que provoca as mais diversas sensações, e, nutridos por ele, somos capazes de pensar ou fazer coisas inexplicáveis, irracionalmente despropositadas, conduzidas pela impulsividade e pelo prazer de ver o nosso objeto de fúria sucumbir. É a partir desse momento, o de atuação, que encontramos (ou não) um inimigo disposto a bater de frente com as nossas transgressões psicológicas. No caso de reciprocidade emocional, o ódio ganha corpo, personalidade, e é alimentado prazerosamente com as mais raras iguarias.

Pense bem, quem odeia não se sente sozinho; terá sempre à sua esquerda, a presença psicológica do seu algoz, pronto para lhe despertar mais e mais sensações negativas por conta de uma trama bem desenvolvida ou mesmo uma discussão inacabada. O que seria melhor? Ter por perto alguém que o odeie ou o despreze? Alguém preocupado em lhe dar o troco pelo último round, maquinando nas noites silenciosas algo para deixá-lo furioso, gastando neurônios para sair vencedor da batalha incansável, em nome de um sentimento reaceso todos os dias ou, simplesmente, alguém que nem se lembra da sua existência?

O desprezo, contrariamente ao ódio, é a falta de sentimento. E a palavra “falta” lembra ausência, neutralidade, insignificância, imparcialidade, desinteresse, negligência, desprendimento, inércia. Esqueci alguma coisa? Isso quer dizer, em vocábulo objetivo que, a partir do momento que se é desprezado por alguém, é como se fosse um amontoado de nada para essa pessoa. É uma forma cruel de punição, seja pelo motivo que for. Ser indiferente a alguém é não ter valor (vivo ou morto), e essa falta de reconhecimento pode gerar algo tão pesaroso que comprometerá o apreço a si mesmo.

Quando os laços de um relacionamento se rompem, geralmente, ficam mágoas, pesos, uma tenra sensação de fracasso e uma preocupação direta em culpar o outro pela morte dos sentimentos bons. Mas ficam lembranças de momentos vividos que, depois de um certo tempo, acabam evoluindo para saudade ou nostalgia. Ser lembrado de vez em quando por alguém com quem se dividiu espaço, suor, lágrima, beijo, raiva, ofensas, é confortador. Sim! Houve troca de emoções recíprocas e energias fluíram por um tempo.

Estar ao lado de alguém que sequer percebe a nossa presença é algo tão inconcebível que desmerece análise. Sabe por quê? Porque não há o que analisar! Como se pode querer fazer colóquios interpretativos em torno do que não existe? O que prende uma pessoa à outra é um aglomerado de composições emocionais que justificam a união. Se isso só está enraizado em uma das partes, não há história, é um espelho sem face. Pode mudar o cabelo, o perfume, viajar para o Nepal, transgredir valores, virar poliglota... a lei da compensação só funciona para casos em que existe autenticidade.

Conversando hoje pela manhã com uma nova amiga, ouvi dela algo muito interessante e que se encaixa perfeitamente para esse enredo. Ela me disse que a avó paterna costuma simplificar os conselhos aos netos com uma única frase: as pessoas fazem aquilo que você permite que elas façam! Bingo! A sábia anciã, no alto de sua vivência filosófica, conseguiu resumir em poucas palavras o que, às vezes, levamos anos para perceber. Se permitimos que os outros adentrem a nossa vida, vasculhem todos os armários, rabisquem os nossos quadros, pensem o que quiserem e desmereçam as nossas qualidades, é porque demos o aval, com assinatura reconhecida e ausência de confronto. Ora, se fomos omissos para mostrar quem somos, por que queremos exigir que os outros nos enxerguem?
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Vamos discutir a Relação?

Desde quando discutimos a relação? Acredito que isso não seja coisa muito antiga, pois não me lembro de ter visto ou ouvido os meus pais discutindo a relação uma única vez na vida. Simplesmente, partia-se para a separação ao se perceber que não havia mais nada a ser consertado. Aliás, quando um casal parava para falar desse assunto, já era o fim, e isso ambos sabiam.

Hoje em dia, queremos discutir a relação quando percebemos que algo não vai bem. A sintonia anda estremecida e cada um está rumando para um caminho diferente, priorizando outras companhias ou excluindo o(a) parceiro(a) em nome da individualidade.

A retórica masculina afirma que discutir a relação é coisa das mulheres; elas é que sempre estão a enxergar fatos que não existem e, por serem confusas emocionalmente, acabam estampando a realidade de uma forma exagerada ou egocêntrica. Talvez isso fosse verdade se pudéssemos comparar os homens às mulheres. Cabeça, sentimentos, expectativas, tudo difere, não há o que ser comparado.

Outro dia, conversando com uma amiga, cheguei à conclusão de que as mulheres levam a vida muito a sério. Sério demais! Os homens não têm esse comportamento. Não ficam tentando acertar sempre, fazendo da vida um manual a ser seguido, com regras, procedimentos e resultados satisfatórios. Deixam-se levar pela espontaneidade e não alimentam grandes expectativas em relação a fatos do cotidiano. Também não se cobram por "pequenos erros" cometidos nessa ou naquela situação com a parceira.

Quando uma mulher sente a necessidade de parar para conversar sobre as suas insatisfações em relação ao parceiro é porque já está no seu limite de tolerância e precisa resolver ou, pelo menos, expor o que a está desagradando. Veja, é exatamente aí que entra o conflito, pois a necessidade dela pode não ser a dele. É possível que ele nem saiba o que tem para ser discutido.

Não, eu não estou querendo dizer que os homens são desligados, avoados ou que não percebem as coisas à sua volta. Apenas pensam de maneira diferente e, muitas vezes, nem pensam nesses distúrbios corriqueiros que ocorrem entre o casal. Levam a vida de maneira tão sutil e despreocupada que já nem lembram o que houve e que precisa ser esclarecido formalmente, com hora marcada, seriedade no rosto e a certa distância da parceira.

Mas uma coisa eles percebem rapidamente, quando convidados a discutir a relação, é porque o caso não está nada bem e pode piorar, principalmente se houver recusa em sentar e ouvir. Sim, ouvir, pois muito pouco eles dizem, e, geralmente, não concordam com as argumentações femininas sobre o seu comportamento. Relutam, combinam três ou quatro frases de apaziguamento e até prometem uma ou outra mudança para acabar logo com o clima formal e enfadonho.

Discutir a relação pode ser saudável desde que ambos sintam essa necessidade, caso contrário, essa ação frequente e insistente (por parte de um dos dois) pode acabar comprometendo o que, de repente, não está tão instável assim. Se existe vontade em permanecer com o outro é porque há sentimentos, há uma história significativa, senão, o maior interessado em esclarecer os fatos seria justamente aquele que está deixando a desejar. Discutiria logo a relação a colocaria um fim em tudo, não acha?

Maturidade, essa é a palavra principal para entender o que está acontecendo com o seu relacionamento. Podem-se construir novas formas de alinhar o que está desajustado, basta apenas um pouco de imparcialidade posto que uma relação contém dois personagens com pensamentos, anseios e personalidades exclusivos. Que não seja vista apenas a sua vontade e sim a de ambos e que seja uma ação restrita aos dois, sem envolvimento de filhos, amigos, parentes, etc. Cada um sabe de si e ninguém mais.

Antes de se iniciar esse colóquio seria interessante fazer um retrospectiva das narrativas mais recentes e perceber se há mesmo necessidade em se parar o tempo para explanar o desconforto e a instabilidade que se apresentam no momento. Pode-se pecar aí por se rebuscar fatos antigos e que já estão adormecidos.

Lembre-se: nunca conseguiremos que alguém seja exatamente da maneira que esperamos. Se assim fosse, que graça teria? Na vida, não existem certezas nem dias iguais. É preciso pensar nisso antes de idealizarmos comportamentos e intencionarmos moldar pessoas a partir de nós.

Acredito, sinceramente, que esse gosto por discurtir a relação seja mais acirrado nas mulheres pelo peso que dão aos seus relacionamentos. Querem um perfeccionismo que não será alcançado dado o fato de que não depende só delas a condução de uma vida a dois.

Talvez, se déssemos mais leveza e espontaneidade aos nossos relacionamentos, não se fizesse necessário nenhuma discussão. Cobrança não é bom para ninguém! Nem para um, nem para outro. Será que nós, mulheres, já paramos para pensar nisso?
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A Dor e a Delícia da Traição Amorosa

De repente você se vê diante de uma situação inusitada. Descobre que a pessoa ao seu lado está sendo (ou foi) infiel. Num primeiro momento, a sensação é de choque, depois, a revolta e a ira apresentam-se como reflexos do não entendimento para tal atitude. Imediatamente, uma série de questionamentos começa a lhe invadir a mente sobre possíveis motivações que levaram o parceiro a ter essa "necessidade". A campeã delas é: - Onde foi que eu errei?

O jargão mais conhecido (e defendido pela maioria) é que os homens traem e pronto. O instinto masculino é mais propenso a essa prática já que, diferentemente das mulheres, encanta-se com mais facilidade pelo inusitado e/ou para mostrar a "macheza" frente a uma oportunidade que se lhe apresenta. E também porque não visualiza o sexo com sentimento, apenas como uma prática prazerosa. Deixa-se ir, então, com mais espontaneidade.

Quando há um acordo monogâmico já está subentendido que ambos deverão ser fiéis um ao outro, porém esse "pacto" pode ser quebrado de uma hora para outra, sem que tenha havido intenção em realizá-lo. Ninguém, em sã consciência, sairá por aí procurando alguém para praticar uma traição. As coisas podem surgir do improvável. E, dependendo do contexto, poderá ou não se concretizar.

Acredito que a traição amorosa independe do sexo. Ainda que os motivos possam ser diferenciados, tanto o homem quanto a mulher podem se sentir encorajados a ter um relacionamento extraconjugal, seja uma única vez ou várias. O caso precisa ser analisado de maneira consciente. O que levou a pessoa a fazê-lo? Experimentar o diferente ou fugir da realidade em que está envolvida?

É claro que qualquer um de nós, por mais estável que esteja, não está imune a se sentir atraído por outra pessoa que não o parceiro. Nessa perspectiva, haverá dois caminhos a trilhar, mas só um poderá ser escolhido: ou se dá vazão à aventura (correndo o risco de ser descoberto e também de se envolver emocionalmente) ou se dá as costas a essa possibilidade, ignorando todos resultantes dessa recusa: o arrependimento, por exemplo.

A pessoa que convive com outra tem um olhar compromissado diante da relação. O desejo de transgredir na simples acepção da palavra é insuficiente para justificar a traição. Há, sim, outras causas que levarão a essa consequência. Normalmente, os homens se sentem motivados a trair por conta de uma atração irresistível, da excitação pelo mistério, da busca pela aventura/satisfação sexual que já não têm mais com a parceira.

As mulheres, com raras exceções, transgridem o pacto monogâmico em nome de alguma ausência (leia-se insatisfação) no relacionamento presente. Buscam, através da fantasia romântica, a realização do que não conseguem obter com o parceiro. Às vezes, é até para chamar a atenção deste para a despreocupação com que tem conduzido a relação. As razões da traição feminina são de fundo emocional, não impulsivo.

Há que se perceber que a quebra da fidelidade é irreversível para ambos. Porém, se houver vontade em se relevar a perfídia, é preciso pousar uma pedra no acontecido de modo a não mais removê-la. Resquícios fantasmagóricos que podem ser ressuscitados vez ou outra, esses, sim, contribuirão para o fim do relacionamento. Não há quem concorde em pagar a mesma conta várias vezes. Ou há?
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Rendez-vous

O tempo está passando, ouço ruídos em minha mente. Não sei se a vida está demais ou de menos para mim. Falta-me significado. Meus momentos têm sido iguais em todas as horas. O relógio marca a mesma hora de ontem. Vago pela sala de madrugada, tentando esquecer as minhas ausências.

Cruzo os braços sobre a mesa, pouso a cabeça sobre os braços...Preciso buscar lágrimas para chorar... Preciso erguer os olhos e olhar para a frente, como se fosse o primeiro de muitos dias felizes, ou quem sabe o primeiro da minha absolvição. Mas o meu corpo está decadente; a minha mente está a envelhecer, e as mágoas que se fizeram com o tempo, estão entranhadas em minhas veias. Tão decadente como essa música que vaga e fere os meus ouvidos como um grito de dor.

O tempo nas horas, cada hora no tempo, e as lágrimas não chegam para aliviar ou embalsamar a minha tristeza. A tarde de hoje foi de tristeza. Sacudi meu corpo para sair da monotonia. Andei apressada pela rua, distante, longe em pensamento, como se não fizesse parte deste plano. As luzes se acenderam, e eu nem dei por mim: que estava na rua, que a noite caíra, que o vento entoava uma canção entre as árvores da praça. E eu estava viva. Todos esbarravam em mim, e eu esbarrava nos vultos que se aproximavam do meu caminho. Eu sempre faço isso! Eu sempre esbarro em mim mesma.

Quero partir para longe, quem sabe para muito longe, não voltar, partir para sempre. Morrer é a palavra! A morte é tão bela quanto a vida. Eu aprecio a morte - ver-me de frente com os últimos minutos de vida. Envolver-me nos últimos suspiros, rápidos, dilacerantes... E tudo estará findado. Os minutos continuarão sendo os mesmos. Apenas com a diferença que, nesse momento, serão sublimes. Serão só meus!

Somando todas as horas de alegria que tive, não daria um terço se comparadas às horas de tédio. Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todas as inquietações, mas não tive tempo de sorrir para cada momento que vivenciei. Amei e odiei muitas pessoas. Meus instintos são fortes e, muitas vezes, falam por mim. A noite avança e me afoga em silêncio; eu me afogo na noite, em tempestade mental. - Apaga-me noite, deixe o tempo esvair poeticamente entre meus dedos! Esperei tanto por esta hora, abandonei a direção do meu destino, e as incertezas vãs que tem me corroído a alma.

Minhas fraquezas se apresentam a cada minuto, inertes, serenas, sem cor. Minha inutilidade para a vida é gritante. Tenho razões para descansar nesta noite tranqüila. O amanhã está desfeito e não virá, por certo. E no vento que me chama para a janela e me mostra o bafejo da lua, sinto o aroma da morte, como flores que exalam do meu jardim florido.
Penso, sobejo, sinto meu passado de todas as maneiras, o que vivi de todos os lados, meus sentimentos de todos os modos possíveis ao mesmo tempo. O meu momento é difuso, profuso, completo, longínquo. Eu torno-me sempre, mais tarde em mais cedo, sou uma pedra ou uma lâmina, uma flor ou uma idéia abstrata, sou multidão, sou humana, profana, inferior e superior.

Esses momentos presentes são absolutamente orgânicos. Talvez eu precisasse agora de um abraço comovido para sentir que estou viva, talvez um beijo amigo ou um sorriso franco a me dizer em imagens que não cometi nenhum crime, que o meu vício pela vida é importante. Porém, despeço-me, entrego-me, transbordo em emoção. Aceno com o lenço de todas as despedidas, sejam elas de paz, revolta, alegria ou dor. Bato de frente contra o meu corpo pelo vermelho e o negro que transformei em rubro, pelas loucuras que me permiti no cair da tarde, pela minha consciência incerta, uma vida pacata neste meu mundo subjetivo.

Passa tudo agora, nesse avançado da hora, todas as coisas num desfile mental e desigual. Todas as pessoas rumorejam-se dentro de mim ... Meu coração rendez-vous de todas as lembranças. Um coração à margem, prólogo, índice, incerto, apenas um bilhete de entrada para o desconhecido. Preciso de uma paz que não tenho, e de um amor que não conheço. É necessário um momento limpo para que eu possa repousar de vez nesta sala vazia, de uma febre imensa que me angustie e me faça espumar nessa imensidão que não cabe no meu lenço.

A vida me dói e mordo os lábios para não gritar. Estou degenerando os meus sentidos. A alma não tem arquivos, e a minha vida foi apenas uma metáfora com valor declarado, uma metáfora de coisas fúteis, uma paisagem da cidade num ponto distante e imperceptível. De todas as portas que abri, de todas as infelicidades pelas quais passei, as impossibilidades de exprimir meus sentimentos, nada se compara a esta fatídica hora: sim, enfim, eu sou a remetente e a destinatária da minha própria sorte. Sou um diário de palavras gastas... E a vida pesa de repente. Faz frio e a vida me pesa nos ombros neste momento. Não quero mais virar a esquina todos os dias, subordinando-me aos senão da vida.

Por favor, não tome nota de nada que escrevi, nem finja que está com pena de um ser tão sofrido e medíocre. Sou apenas alguém que passa, sem que você perceba; um vulto que está ao seu lado por acaso. Sou alguém num tempo qualquer que já foi. Quero silêncio! Preciso partir para a minha viagem. Não gosto de barulho e não quero que o sino toque. Todas as horas são minhas agora. Passo a ser a dona do tempo.


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©2009 Sweet Afrodite | by TNB